Mãos para cima e pernas pro ar, batendo palma vai vai vai...
não para não, assim...vai vai vai...
Entretenimento do espetáculo midiático
nossa passividade não é algo natural
ídolos transformados em deuses,
cores que ofusca o brilho do gueto,
pessoas presas à tv por uma mera visita profana,
distraídos com sexo, festas e gincanas.
Mapearam nossas ambições, infiltrando espiões.
“Quanto custa você?” eles querem saber.
é só questão de tempo minuciosamente aparecerão e,
as propostas vão rolar, “Coincidência há?”
Se der mostra de influente, indo de contra a corrente,
esteja preparado, vão tentar te cooptar.
Já se foi o tempo do senso crítico, um milhão seduz
calando a crítica de qualquer restolho.
Meninos(a) sonham com o estrelato, na evolução da
Ignorância transformam-se em sociedade do espetáculo,
fazendo show em cima do palco depois assistindo as melhores
cenas na cama, pagando seus salários com gemidos.
viajantes de um mundo imaginário se transformam
em cenário pro jogo da televisão.
O artista da fome
O artista da fome era aquele profissional que divertia o público. Mas num belo dia....
O mimado artista da fome viu-se abandonado pelas pessoas ávidas de divertimento,que
iam agora em busca de espetáculos mais atraentes.
Que poderia então fazer o artista da fome?
Fora aplaudido por milhares de pessoas e não queria agora
conformar-se com exibições em barracas de feira.
Num derradeiro esforço, o empresário correu com ele metade da Europa, a ver se a antiga simpatia poderia ser reavivada.
Mas não teve jeito, assim, despediu-se do empresário, companheiro de uma carreira inigualável,e firmou contrato com um grande circo.
Um circo importante, que está continuamente contratando e
substituindo homens, animais e aparelhamento, sempre pode utilizar um artista, até mesmo um jejuador, contanto que não exija muito.
não se podia dizer que ali estivesse um artista que, tendo ultrapassado a maturidade e não se achando mais em plena forma, viera buscar refúgio num circo. Pelo contrário, o jejuador afirmava ser capaz de suportar a abstinência tanto quanto antes e disso não se poderia duvidar. Chegou mesmo a declarar que se lhe dessem carta branca, o que lhe foi imediatamente prometido, poderia assombrar o mundo, estabelecendo um recorde jamais alcançado.
Tal declaração provocou risos nos outros profissionais,
pois não estava sendo levada em conta a frieza do público,
fato que o jejuador, em seu zelo, parecera ter convenientemente esquecido. No íntimo, ele não deixava de perceber a verdadeira situação.Conformou-se em ver sua gaiola colocada, não no meio da arena, como principal atração, e sim fora, perto das jaulas dos animais -–local, afinal de contas – bastante acessível.
Quando o público vinha, nos intervalos, ver as feras, tinha de passar pelo jejuador e algumas pessoas paravam, por momentos. Talvez se demorassem por mais tempo, não fossem os empurrões dos que vinham atrás, pela estreita passagem, e que não compreendiam o motivo pelo qual eram detidos. Isto impedia que os primeiros o examinassem com calma depois que passava o maior número, vinham os retardatários. Embora pudessem contemplá-lo à vontade, apressavam-se, sem nem mesmo olhá-lo, tal o medo de chegarem atrasados às jaulas dos animais,. Foi esta a razão que fez com que o artista que aguardara tais visitas como o maior acontecimento de sua vida, começasse a temê-las. A princípio, mal podia esperar pelos intervalos.
apesar do obstinado e quase consciente desejo de iludir-se, teve que se
render à evidência. Convenceu-se de que aquelas pessoas, a julgar pela sua atitude, procuravam apenas visitar os animais.
Talvez as coisas corressem melhor, pensava o artista, se não o tivessem colocado tão perto dos animais. Isto tornava ao povo fácil a escolha, mesmo não se levando em consideração que ele sofria com o cheiro desagradável, a inquietação das feras à noite, a passagem dos pedaços de carne crua, o ruído na hora de serem alimentados, coisas que o deprimiam profundamente. Mas não ousava queixar-se. Afinal de contas, devia aos animais a afluência de tantas pessoas e sempre podia haver alguém que o notasse e lembrasse de sugerir
lugar mais isolado para a gaiola, caso ele chamasse atenção para sua
existência e para o fato de, na realidade, nada mais ser do que um obstáculo à passagem do público. Poderia jejuar à vontade e era o que fazia, mas nada agora o salvaria. O povo passava, indiferente. Fosse alguém explicar a arte do jejum! Quem não a apreciasse espontaneamente, jamais chegaria a compreendê-la.
Muitos dias se passaram e também aquilo chegou ao fim. Um fiscal
apareceu ali e perguntou aos funcionários por que se desperdiçava uma
jaula que continha apenas um monte de palha suja. Ninguém soube
responder até que um deles, notando o cartaz com o número de dias,
lembrou do artista da fome. Enfiaram um pau na palha e o descobriram.
– Ainda está jejuando? – perguntou o inspetor. – Quando, em nome dos
céus, pretende parar?
– Perdoem-me todos –
– Claro que o perdoamos – respondeu, batendo na testa, como a indicar aos empregados o estado mental do jejuador.
– Sempre desejei que admirassem minha resistência.
– Claro que a admiramos – disse o fiscal, amavelmente.
– Mas não deviam admirar.
– Está certo, não admiramos, então, mas por que diz isto?
– Porque tenho que jejuar, não posso evitá-lo.
– Que tipo você é! – exclamou o inspetor – Por que não pode evitá-lo?
– Porque não consegui encontrar comida a meu gosto – respondeu o
artista, erguendo um pouco a cabeça e falando junto ao ouvido do outro, para que não se perdesse uma sílaba. – Se a tivesse encontrado, creia que não teria feito nada disto e me empanturraria como o senhor ou qualquer outro.
Foram estas suas ultimas palavras, mas não olhos apagados restava a
firme, embora não mais orgulhosa, certeza de que continuaria a jejuar.
– Pois bem, limpem isto aqui! – ordenou o fiscal.
Enterraram o artista da fome, com palha e tudo. Em seu lugar, puseram
uma jovem pantera. Até mesmo as pessoas mais insensíveis acharam
agradável ver o animal selvagem pulando na jaula que durante muito tempo tão lúgubre parecera. A pantera ia muito bem. A comida que lhe convinha era trazida pontualmente pelos empregados e ela nem mesmo dava impressão de sentir a ausência de liberdade. Aquele nobre corpo, provido ao máximo de todo o necessário, parecia trazer em si a própria liberdade. A alegria de viver fluía de suas faces com tal ardor, que aos espectadores não era difícil suportar o choque. Mas enchiam-se de coragem, comprimindo-se à volta da jaula, e acabavam não querendo mais se afastar.
Franz Kafka
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