Passatempo


Entre ralos e vielas
se fareja a saída
do labirinto
um copo de absinto
piada no círculo
levanta a espada
e muda o rito.


Cheiros, cores , palavras de amor
confundem os desejos
de liberdade ou torpor
cabeça baixa pra evitar a dor
beija o anel do doutor.

Planos, grampos, instituições .
Institutos e instintos .
Aquele que te falou,
foi instruído a mentir
te fez dormir e sorrir
te mostrou o melhor atalho a seguir...

Clubes na esquina
cavernas subterrâneas
encontro marcado
entre a foice e o gado.
Técnicas pra te manter dócil
atento aos seus olhos
apetites fabricados.
Presa fácil
do grande big brother...

Do alto da pirâmide
o Faraó contempla sua obra:
gatos vaidosos
com sua tigela de leite
debocham dos cães
que vivem abanando o rabo
por uma casa nova;
e os ratos que se matam
pelas sobras.

A mesa é farta
pra quem pagou o arrego
viu a torta e
ficou do lado de fora...
Amanhã te dou um presente:
um fino de pontas
pra configurar minha Loja.



"Eu não quero o queijo, só quero desarmar a ratoeira."

MINEIRINHO

Ë, suponho que é em mim, como um dos representantes do nós, que devo procurar por que está doendo a morte de um facínora. E por que é que mais me adianta contar os treze tiros que mataram Mineirinho do que os seus crimes.

Perguntei a minha cozinheira o que pensava sobre o assunto. Vi no seu rosto a pequena convulsão de um conflito, o mal-estar de não entender o que se sente, o de precisar trair sensações contraditórias por não saber como harmonizá-las. Fatos irredutíveis, mas revolta irredutível também, a violenta compaixão da revolta. Sentir-se dividido na própria perplexidade diante de não poder esquecer que Mineirinho era perigoso e já matara demais; e no entanto nós o queríamos vivo. A cozinheira se fechou um pouco, vendo-me talvez como a justiça que se vinga. Com alguma raiva de mim, que estava mexendo na sua alma, respondeu fria: "O que eu sinto não serve para se dizer. Quem não sabe que Mineirinho era criminoso? Mas tenho certeza de que ele se salvou e já entrou no céu".

Respondi-lhe que "mais do que muita gente que não matou".

(...)

Essa justiça que vela meu sono, eu a repudio, humilhada por precisar dela. Enquanto isso durmo e falsamente me salvo. Nós, os sonsos essenciais.

Para que minha casa funcione, exijo de mim como primeiro dever que eu seja sonsa, que eu não exerça a minha revolta e o meu amor, guardados. Se eu não for sonsa, minha casa estremece. Eu devo ter esquecido que embaixo da casa está o terreno, o chão onde nova casa poderia ser erguida. Enquanto isso dormimos e falsamente nos salvamos.

Eu não quero esta casa. Quero uma justiça que tivesse dado chance a uma coisa pura e cheia de desamparo em Mineirinho — essa coisa que move montanhas e é a mesma que o fez gostar "feito doido" de uma mulher, e a mesma que o levou a passar por porta tão estreita que dilacera a nudez; é uma coisa que em nós é tão intensa e límpida como uma grama perigosa de radium, essa coisa é um grão de vida que se for pisado se transforma em algo ameaçador — em amor pisado; essa coisa, que em Mineirinho se tornou punhal, é a mesma que em mim faz com que eu dê água a outro homem, não porque eu tenha água, mas porque, também eu, sei o que é sede; e também eu, que não me perdi, experimentei a perdição.

A justiça prévia, essa não me envergonharia. Já era tempo de, com ironia ou não, sermos mais divinos; se adivinhamos o que seria a bondade de Deus é porque adivinhamos em nós a bondade, aquela que vê o homem antes de ele ser um doente do crime.

Continuo, porém, esperando que Deus seja o pai, quando sei que um homem pode ser o pai de outro homem. E continuo a morar na casa fraca. Essa casa, cuja porta protetora eu tranco tão bem, essa casa não resistirá à primeira ventania que fará voar pelos ares uma porta trancada. Mas ela está de pé, e Mineirinho viveu por mim a raiva, enquanto eu tive calma.

Foi fuzilado na sua força desorientada, enquanto um deus fabricado no último instante abençoa às pressas a minha maldade organizada e a minha justiça estupidificada: o que sustenta as paredes de minha casa é a certeza de que sempre me justificarei, meus amigos não me justificarão, mas meus inimigos que são os meus cúmplices, esses me cumprimentarão; o que me sustenta é saber que sempre fabricarei um deus à imagem do que eu precisar para dormir tranqüila e que outros furtivamente fingirão que estamos todos certos e que nada há a fazer.

Tudo isso, sim, pois somos os sonsos essenciais, baluartes de alguma coisa. E sobretudo procurar não entender.

(...)

Até que viesse uma justiça um pouco mais doida. Uma que levasse em conta que todos temos que falar por um homem que se desesperou porque neste a fala humana já falhou, ele já é tão mudo que só o bruto grito desarticulado serve de sinalização.

Uma justiça prévia que se lembrasse de que nossa grande luta é a do medo, e que um homem que mata muito é porque teve muito medo.

Sobretudo uma justiça que se olhasse a si própria, e que visse que nós todos, lama viva, somos escuros, e por isso nem mesmo a maldade de um homem pode ser entregue à maldade de outro homem: para que este não possa cometer livre e aprovadamente um crime de fuzilamento.

Uma justiça que não se esqueça de que nós todos somos perigosos, e que na hora em que o justiceiro mata, ele não está mais nos protegendo nem querendo eliminar um criminoso, ele está cometendo o seu crime particular, um longamente guardado.

Na hora de matar um criminoso - nesse instante está sendo morto um inocente. Não, não é que eu queira o sublime, nem as coisas que foram se tornando as palavras que me fazem dormir tranqüila, mistura de perdão, de caridade vaga, nós que nos refugiamos no abstrato.

O que eu quero é muito mais áspero e mais difícil: quero o terreno.


Clarice Lispector

Sob o inverno

Sob o numero de ordem 105307 foi lavrado Jorge Luiz Soares
Aos 18 dias do mês de setembro.
Filho de Joaquim Santiago e Vitalina Rodrigues.
Profissão:

Servente

Certidão de órbita de um ser que teve a serventia como profissão.
Mais um Servente Severino deixou de Servir a multidão.
Não deixou filho
Não deixou bens
Não deixou testamento
Único tesouro: SENTIMENTO.

Mais uma flor brotou
No jardim do firmamento
Mais uma eterna alma infantil
Subiu às alturas, nos
Deixando a importância dos pequenos gestos.

A ponte que se formava na lembrança
Um elo que não se deixou
Romper pela distância.

Os pássaros hoje irão cantar
A liberdade dum espírito
Antes engaiolado.

E seu balão?
E sua pipa?

Hoje seu pião são os astros a girar
Hoje o infinito convidou a brincar.


Eu escrevente dou fé da sua trajetória.

Outra forma.

Um líder, bem, não me convém

Eu quero ir muito mais além

Ser eu, ser só, me transformar

No mundo inteiro a caminhar...

Ouvir as vozes siderais

Sentir, pensar meus ancestrais

E se você puder ouvir

Te levo junto a construir

Um mundo novo, um pensamento

De ser mais junto e mais atento

Nós somos todos nosso próprio tormento

Se eu concordo é problema meu

Mas questionar sempre me cresceu

Não posso ouvir e sempre calar

Eu sonho, eu busco e não me contento

Minha ideologia me faz rodopiar

Eu giro a saia virando o tempo

Te levo junto fazendo vento

Me desculpe então por meu temperamento

Sou má, sou mais, sou todos nós

E ainda assim não sou algoz

Meu coração é minha voz

Eu erro muito e ainda assim quero mais

Te ouvir é coisa natural

Mas meu ouvido ta imundo

perdida no ego, meu inferno pessoal...

Não,não,não venha me dizer

Calcule o que é maior (melhor) só por você

Nananão, eu sei bem me guiar

Sei da imensidão que eu posso (E QUERO) ser

Sim,sim,sim pode me ensinar

O que eu quero é alterar

E descobrir o céu que podemos ser... (Distante)


***"Solta a voz aí meu irmão!"

Apocaliptus Profeticus Panfletarius

A primavera vem chegando
e assim as oferendas
numa corrida tecnológica
para fugir da destruição do planeta.

Na inquisição terrorista
choque de cultura totalitarista
verdades e mentiras ocultas
aumentam a ignorância e a ira
inspiração para a fome dos artistas
que ainda esperam por uma
intervenção divina.

Modernas celebridades
antigos ídolos pagãos...
os novos pastores da única nação
acusam de heresia
aqueles que são contra a monarquia.



Daniel 11:35: "E alguns dos entendidos cairão, para serem provados, purificados, e embranquecidos..."

Cada um por si e nós contra todos!

Diagnostique a primazia do tédio, essa rivalidade redundante

Seus emblemas, seus difusores

Produzindo insondáveis focos de luz

Enigmas lunares...

A raridade das ondas estelares

Habilite seus sonhos para uma realidade que atormenta o coração

Parece um abismo esse caminho que anuncia a continuação dessa terra...

Eu sinto o ar invadindo e rasgando meus pulmões

Vejo o cheiro da fome nos olhos de quem ocupa as ruas

O barulho é tremendo

E a calma?

Não conhece nosso endereço

Todas essas placas

Toda essa beleza conveniente

Essa bagunça muito bem arquitetada

Talvez por isso prefira me vestir de poesia

Usar isso pra tentar ver melhor os rostos escondidos na escuridão da vaidade

Os que se escondem atrás de sua sabedoria absoluta

Nesse mundo a revolução virou produto e a paz, utopia

Vivemos na sociedade da ultra exposição e como amamos essa condição!

Nossa liberdade está contida em nossos bolsos

Ou num cofre muito bem protegido por um segredo

O segredo do universo

Do universo de quem habita o topo

Me recuso a ser uma expectadora passiva desse filme sem cor

Prenderam nossa voz, acorrentaram nossos pensamentos

Subverteram nossos sentimentos

Eu não sei andar sozinha

Mas o coletivo às vezes parece pesado demais...

Eu quero o céu e quero um copo de vinho

Quero muitos corpos suados em contradição

Uma oferenda ao Deus do torpor

Quero muitas nuvens de audácia

Muitos pés em círculo conjurando um feitiço

Muitos peitos em brasa erguendo os olhos pra imensidão

Odeio o modo como somos observados na rua

Eles pensam que nos conhecem só pela roupa que usamos

Ou pela cara que fazemos quando temos fome.

Eles tentam nos oprimir

Mas não podem conseguir!!! (Distante)

***"Ficar preso é muito ruim, mas é melhor ficar aqui dentro que lá fora onde podem acontecer muitas coisas ruins com a gente...não é não?!" (U.D)

***...

Aeryael


Caminhando pelo caminho
às vezes pego a direita
outras a esquerda e sigo.
Tantas setas confundem a direção;
nessa solidão cercado de amigos...
converso com os livros.
Entre sombras e aparências
quero Sol e água fresca
pra viver sem pressa
observando a fresta
entre o céu e a janela
descobrindo um motivo pra fazer festa.
A gravidade me põe no chão.
Na derrota do campeão
busco os revolucionários
e acho os artistas de mercado.
Sou meu mestre e discípulo
o Joio e o trigo.
O caçador e pastor
o público e o ator.
O herói de várzea que queria ser mago
se entorpece sem sentir torpor.
Fujo da própria sombra
me perco da fonte...
sou o ímpar e a consoante
quero a puta e a cartomante.
Dou um tiro no próprio pé
ao sorrir pro inimigo
A distração e o prazer
fazem esquecer do perigo
de se manter dormindo, satisfeito
e sorrindo.
Entre a exaltação e a dissolução
O silêncio e o grito
sou mais um menino esperando por carinho
da Deusa que um dia voltará?
Um dia eu penso menos
e aprendo a amar?
São poucos os momentos que me sinto vivo.
Por enquanto vou recortando e colando os mitos.
Esperando um dia poder me libertar desse
sonho esquisito.


“Não somos aquilo que fizeram de nós, mas o que fazemos com o que fizeram de nós”