Dona Nina



A época era século XlX, 1898 talvez. Ia eu distraidamente no meu passeio matinal, pensado qual seria minha nova missão. Foi aí que vi uma mulher, com jeito de menina, carregando um monte de roupa na cabeça, não sei porque fui tocado profundamente quando seus olhos esbranquiçados encontraram-se com o meu. A sensibilidade já tinha saído de mim há muito, naquele instante ela resolveu voltar, de repente, sem que eu me desse conta do que estava sentindo. Fui pra casa, não consegui fazer mais nada, ela não me saia da cabeça, aquela menina me fazia recordar os tempos de criança, saia com papai pra praça, em quanto brincava com outras crianças ele examinava uns crioulos, “mercadoria nova, Namibia, Nigéria, Zimbawe” era o que gritava o vendedor. As perguntas já se faziam dentro de mim, papai... ah! Já sabia de co às respostas pras minhas atrevidas curiosidades, “meu filho o que aprendeste no colégio hoje?” –A teoria do direito divino. “então diz pra mim o que você entendeu”. – uns nascem pra mandar e outros pra serem mandado. Meu resumo era rápido, não gostava d´quelas explicações que os professores davam, era chato, parecia que eles estavam escondendo algo de nós. E estavam mesmo, vim saber muito mais tarde, não que meu pai resolveu contar-me, é que eu era curioso e não conseguia entender por que D°Nina, uma negra que servia em minha casa, juntamente com seu marido não abriam a boca pra nada, a não ser pra responder aos mandos do papai, não entedia como conseguiam ficar calado o tempo todo sem dar uma instrução a sua filha, Namíbia.

Numa bela madrugava, em que o sono não chega, a curiosidade continuava me incomodando. Eu podia ouvi os cantos dos negros em seus rituais macabros, visão essa herdada de papai e da sociedade, mas não parecia nada de ruim, eles pareciam felizes, eu sentia os tambores vibrando dentro de mim, era uma sensação confortante, quantas vezes pensei em ir até lá, mas nessa noite nada me impediria, fui! Mas não deixei que ninguém me visse, estragaria a aquela festa que parecia tão bonita. E era mesmo, tive a confirmação quando às lágrimas rolaram de meus olhos descontroladamente , queria estar ali com eles,cantar suas cantigas, ri também pelo menos uma vez na vida, minha infância era sem emoção tudo que fazia era estudar pra poder herdar. Herdar aquela gente, juntamente com sua miséria, suas terras, fui criado pra ser um burguês, sem pena nem dó!Seus problemas não interessavam a mim pois já tinha decorado a teoria do direto divino- nada acontece por acaso tudo é obra de Deus, se uns têm demais e outros de menos, foi porque Deus quis assim e, não cabe a nós simples mortais interferi nos planos divino. Derrepente eles começaram a cantar baixinho como se estivessem cansados, conclusões bestas de um burguês que não sabia o que era uma roda de candomblé, mas não, Tinha chegado a hora de instruir as crianças, e foi aí que meus olhos mais uma vez se encheram de lágrimas.

Eu vi D°Nina virar os olhos e olhar pro céu, eles de rubros ficaram esbranquiçado, ela deu um tremor como se estivesse recebendo uma entidade, começou a abençoar um à um. As crianças fizeram uma roda em volta dela, todas sentadas, que começou: “ A necessidade da ganância me fez viajar.Venho de uma terra distante onde os tambores batucavam no lugar dessa sabiá. Aqui encontrei um povo diferente, dizendo que nós não era gente e só servia pra trabalha. Nos botando na praça e começando a nos examinar, um homem apertava meus seios, olhava meus dentes e discutindo com um outro mandava o preço abaixar, esse outro dizia que eu era a melhor, e ele ainda teria o privilégio de ser o primeiro a me experimentar. Aos doze anos vi o prazer de toda noite de meus pais se transformar em dor. Nossa alma não existia, assim o padre em nome do Deus deles falou, mas saiba vocês que Babalorixá é o nosso Deus maior e ele está vos protegendo nesse sofrimento diário. Não acredite em nada que o Deus deles falam, Babalorixá é maior. Um dia...”

D°Nina falava! tive um espanto, seus olhos me recordaram aquela mulher que tinha visto com as roupas na cabeça, ela dizia coisas que eu não aprendia no colégio, respeito ao próximo, terra sagrada, culturas diferentes e todos deveriam respeitar. Não sei porque mas... sentia uma vontade de ficar ali com eles, queria porque queria adorar à Babalorixá é que, eu não conseguia sentir nada com aquele padre falando naquela língua estranhar. Quando os tambores começavam, ah... sentia um arrepio tão forte, era como se eu fosse me igualar a D°Nina, mas não era ela, eu podia sentir, era outra força que se apossava do seu corpo, suas palavras pareciam mais verdadeiras que as do colégio. Não dava, eu já estava prometido a não sei o que, só tinha certeza que não era a Babalorixá pois D°Nina estaria comigo. Estar prometido não era nada de mais, o único problema era o que ela falava as crianças da senzala, “cuidado meus filhos, tudo que começar errado não presta”. A promessa que meu pai fizera, não envolvia só às terras, os ganhos, vim saber bem depois quando aqueles olhos me olharam parecendo que dizia, “você teve sua chance de renunciar a tudo”. A promessa era algo maior, que ultrapassa os tempos, tinham investido tudo em mim, na minha educação alienada, me fizeram crer no amor sublime, mas esqueceram de avisar-me que ele estava ali com aquela gente, junta à D°Nina. Eu era uma espécie de prometido, o mundo em minha visão seria de paz, mas só depois da guerra tão necessária à manutenção da ordem, que garantiria a libertação de uma nação.

Transferi meu amor à causas que não eram minhas e sim de pessoas à cima de mim, mas não me pergunte quem são, pois até hoje não sei, meu único contato eram meus amigos, da mesma hierarquia , que estavam ali pelos mesmos motivos, ser disciplinado pra pode mandar, tenho a certeza que o olhar de D°Nina não cruzou com os deles em nenhum momento da vida. Se cruzou, eles ignoraram, já estavam envolvidos demais, a única solução era tentar o suicídio, sentimento que permeou minha mente por muito tempo, dou graças a Babalorixá por ter dissipado esses meus pensamentos pois não estaria aqui hoje, lembrando de D°Nina, lembrando do único momento que fui feliz na vida, quando minha curiosidade levou-me aquela festa de Candomblé, e me fez ver uma outra realidade à que é imposta a maioria.

( -Catimbó)

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